2/20/2017

Atravessando o Rubicão



Recebi uma excelente indicação bibliográfica do meu querido amigo e mestre Luis Antônio Baptista, com a gentileza que lhe é característica, e resolvi ler nas férias o livro "A virada", de Stephen Greenblat, sobre a descoberta do manuscrito antigo De Rerum Natura, de Lucrécio, durante o humanismo renascentista. Uma das passagens que mais me impressionou é a percepção, por parte do autor, de um momento de ruptura do pensamento antigo para o medieval.
Bem antes da queda de Constantinopla, o autor situa como um ponto crucial de transformação entre o paganismo greco-romano e o universalismo judaico-cristão o declínio do riso, do escárnio, helênico sobre a rudeza cristã. Idiomas de parca tradição literária à época, o hebraico e o aramaico no qual o pensamento de Cristo foi construído, comparados com o grego de Homero, Eurípides e Sófocles; e o latim reinventado por Virgílio, Cícero e Lucrécio; eram apenas capazes de dizer as coisas de uma forma bruta, simplificada, desinteligente aos olhos de um patrício romano educado na tradição filosófica e literária da época. Daí que a fala de um cristão antigo soava como estupidez, estultice, fala de camponeses e de pastores, de gente da qual se fazia melhor uso alimentando os leões.
Por isso, segundo o autor, é quando a fala pública do cristão: com sua retórica direta sem as figuras de linguagem, o ritmo e a ênfase musical do latim literário; professando um mundo cindido em céu e inferno; clamando por renúncias desedificantes – muito diferente das renúncias do ascetismo estoico que valorizavam a experiência, os cristãos desvalorizavam o corpo e a singularidade, em nome de uma redenção universal extracorpórea, espiritual; enfim, quando essa fala considerada “burra” há apenas algumas décadas, de repente começa a ser uma fala pública aceitável; é aí que a antiguidade fica para trás, ou seja, o assassinato de Hipátia e o incêndio da biblioteca de Alexandria como fim do caráter público do paganismo, e, mais tarde, a queda de Constantinopla invadida pelos otomanos, tudo isso são apenas a efetivação de um processo que começava a ser forjado dentro dos regimes de aceitabilidade muitos anos antes ainda no Império Romano pré-bizantino.
Pois nós também estamos tendo a possibilidade de sermos contemporâneos de um processo similar. De repente a defesa de atrocidades como o acorrentamento e tortura públicas de um jovem negro que cometeu um roubo passa a ser dizível em voz alta. Não que isso não estivesse acontecendo o tempo todo ou que esses discursos não frequentassem os pensamentos silenciosos e os círculos restritos. Mas agora as pessoas passam a dizer em público, em voz alta, o quão a favor do assassinato elas são, e isso não é apesar de serem “boas pessoas”, mas ser a favor do linchamento é, justamente, o que as torna “boas pessoas” e não cúmplices como os defensores dos Direitos Humanos. De repente dizer que não gosta de pobre, que acha pobre fedido, que gosta mesmo é de gente rica, passa a ser tão aceitável que um candidato a prefeito diz isso em plena campanha e é eleito (talvez, em parte, por isso). De repente, dizer que políticas de equiparação racial, de gênero, de classe, são invenções de esquerdopatas. E que o mundo é “cão” mesmo é que “aqui é cada um por si”. Tudo isso passa a ser normal ou aceitável pelo senso comum e pelo bom senso.
Quem convive em redes sociais sabe do que estou falando.
Mas outras mudanças vêm ficando evidentes. De repente nos círculos acadêmicos, tal como no repúdio da virtude cristã sobre a frivolidade do esteta pagão, se começa a denunciar o quanto os discursos ditos pós-modernos são nocivos porque usam da confusão conceitual para enfraquecer os movimentos sociais. De repente, o pensador acadêmico passa a ser não apenas um reprodutor das injustiças históricas - o que, no final das contas, enquanto sujeito históricos todos somos em certa medida, e todos devemos lutar contra isso. De repente o intelectual acadêmico é um dos artífices das injustiças históricas. Porque fala demais, ele ilude. É um sofista que com sua retórica impede que a verdade empírica seja percebida. Ele ganha nos argumentos, mas perde em virtude, porque no final das contas ele está interessado na injustiça. Ele lucra com ela. Então ele deve calar.
E chegamos ao ponto em que não é mais razão de vergonha denunciar aquele que argumenta, justamente porque argumenta. É precisamente o fato de argumentar que constitui a sua falta. Sua condição argumentativa é fruto de uma injustiça histórica. A sociedade não distribui em igualdade o acesso à formação intelectual, portanto, se você a tem você deveria estar envergonhado, culpado por isso, deveria se abster de exibir sua cultura em público. Cada vez que você o faz, está violentando alguém que não recebeu as mesmas condições. Não importa se o seu discurso fala em nome das políticas de reparação social, das políticas afirmativas, não importa se, no fundo, você enquanto intelectual reconheça o seu lugar de privilégio e lute por um mundo em que ele não exista. Tal como um romano pagão, você adora os deuses errados. Não se prega a virtude adorando a Júpiter, não importa o conteúdo da sua pregações, assim como desde que lutada em nome de Jesus, qualquer guerra é sagrada. A oposição não é mais entre forma e conteúdo, só interessa a liturgia. Se você manipula os símbolos corretos, você está autorizado, e, meu jovem intelectual, acredite: os autores ditos pós-modernos não são mais os símbolos corretos! Não importa o que você diga através deles, você errou na ritualística. Você riu no velório. Recebeu o caboclo no bar-mitsva. Cortou o espaguete com a faca. Shame on you!
Atravessamos o Rubicão do dogmatismo acadêmico. Há simplesmente o que pode ser objeto de escrutínio intelectual e o que deve ser aceito em silêncio reverente. Há o que pode ser debatido e o que deve ser expiado sob a forma da culpabilização ou do transe fusional. Sinta-se culpado e cale ou ao menos se emocione, se comisere com as vítimas do sistema que lhe privilegia! O sentido não habita mais a fronteira entre o dizer e o sentir. O sentido agora é uma direção: aquele é o lado correto, todo o resto é inadmissível. Não há errância. Apenas erros e fiscais ansiosos por apontá-los. O sentido agora é uma ordem: pelotão, sentido!
Tal como o cristianismo foi um dispositivo que produziu mudanças importantes. É um dos elementos históricos que tornou inaceitável a escravidão, por exemplo. Passando por etapas em que conviveram harmonicamente, foi o cristianismo protestante inglês junto com o capitalismo industrial nascente uma das forças que atuaram mais energicamente para o fim do tráfico de escravos negros no século XIX.
Portanto, o declínio do beletrista pagão pode ter sido positivo no final das contas. Ou tudo poderia ter sido ainda melhor se tivéssemos tido a conservação da genialidade helênica junto da modernização que o universalismo e o humanismo cristão trouxeram no renascimento? Infelizmente a seta unidirecional do tempo não nos permite essa apreciação. Não dá para saber o que teria sido do mundo, se melhor ou pior (E melhor para quem ? Pior para quem?)se a fala cristã continuasse sendo alvo de desprezo, signo de fragilidade intelectual. E se o paganismo, o judaísmo e o cristianismo tivessem convivido globalmente tal como co-existiram em harmonia durante a Alexandria pré-Constantino? Não dá para saber.
Da mesma forma, há algo na sociedade que clama por mudanças. Certas injustiças como a das subjetividades brancas contra as negras, masculinas contra as femininas, heterossexuais contra as homossexuais, cisgêneras contras as transgêneras, de capitalistas e pequeno-burgueses contras proletários, entre outras, precisam mudar e, às vezes, a mudança não pede licença, mas bota o pé na porta, mesmo que para isso, faça vítimas não planejadas. Danos colaterais, não é assim que chamam?
Não há condições no momento para saber se tudo vai dar pé ou se a barbárie já está iniciando. Em todo caso, eu já decidi que minha alma é de beleza, de festa, de alegria e de gentileza e o fundamento disso é uma inexorável curiosidade de pesquisador, um encantamento pela matéria do mundo e uma relação bem resolvida com a incerteza. Portanto, essa guerra entre os justos e os degenerados, entre as pessoas de bem e os insensatos, vai me pegar distraído como um Arquimedes em Syracusa. Serei uma vítima casual? Um dano colateral? Ou um violinista no Titanic, aproveitando os estertores de um lirismo que está em vias de acabar?
Não importa. Esse é o único jeito como posso viver esse processo.Amor fati.
As multidões são turba como são as tempestades e as águas revoltas. Tudo nasce em incerta hora e incerto local, e pelo mesmo princípio se dissolve. Está aí a maior lição de Lucrécio. A matéria é filha de Vênus e pelo prazer cria e destrói. Mas o deus Ares só sabe da moral e da destruição.
Sou um Arquimedes. Até o fim me interessa a beleza suja dos grãos de areia e não a pureza ariana. Seja lá a forma ou cor em que ela se apresente.

11/17/2016

Estética do Grito



Nos idos dos anos 90 eu morava ao lado de um morro que não deixava chegar o sinal de televisão. Imagem com chuvisco. Jogo de futebol com 44 jogadores em campo. Bombril na ponta da antena. Se alguém espirrasse de um lado da sala já se ia a imagem.  Até que chegou uma antena parabólica lá em casa e foi como se as portas da percepção tivessem sido escancaradas: agora era possível ver canal de leilão de joias caríssimas; ou de venda de produtos para prática de abdominais; ou de facas que cortavam arame; ou de qualquer noticiário regional do Brasil e até de outros países sul americanos. Tudo isso com a imagem límpida que só uma antena enorme apontada para um satélite orbital poderia fornecer.

Mas dessas edificantes experiências, nunca vou me esquecer da primeira vez que assisti ao programa do Carlos Massa, que ainda não tinha ficado conhecido como Ratinho, numa emissora que transmitia para o Paraná. Eu lembro de ter pensado imediatamente: “é possível gritar assim na televisão?”. Ele caminhava para frente e para trás, chutava a bancada no centro do auditório cinza e gritava, vociferava, berrava qualquer coisa sem muita importância, o importante é que ele dizia estas coisas muito, muito alto. A estética televisiva até então não permitia as ações exacerbadas. A televisão amplifica tudo, bem o sabem os profissionais do ramo. Os gestos até então eram comedidos, assim como os tons de voz. Eu pensei: “deve ter acontecido algo muito relevante, hoje, para ele estar assim. Certamente voltará ao normal nos próximos programas”. Mas esse era o normal para ele. E foi assim durante alguns dias em que eu observava aquele fenômeno que a imagem sem fronteiras me proporcionava. O que eu não sabia era que esse passaria a ser “O” normal para a comunicação em geral.

Outra característica desse programa que me espantou era a relação com as filmagens. Ele apontava para um telão que ficava no palco e mandava, sim, ordenava que os telespectadores vissem algo que ele achava importante: “Olha isso! Olha isso! Olha isso!”. Muitas repetições. “Tô olhando. Claro! Como não? Mas por quê? O que houve?”, eu pensava. Era a cena de um sujeito algemado. Ou de um carro acidentado. Ou de uma construção em ruínas. O que tinha acontecido? Por que o homem foi preso? Alguém se machucou no acidente? Ou no desabamento? O que de fato aconteceu? Quais as versões que as pessoas têm a dizer sobre o que a imagem mostrava. Mas, depois de mostrar aquilo, ele cortava direto para outra imagem a ser olhada peremptoriamente e depois cortava para ele gritar o ABSURDO daquela situação que os políticos sem-vergonha, ou falta de vergonha na cara, ou a falta de laço tinha, ou os direitos humanos tinham criado! 

O que se inaugurava ali e que eu ainda não sabia era que não era mais necessária a interpretação, a narratividade, as múltiplas versões, a ponderação do contraditório. As imagens agora vinham acompanhadas de uma legenda que apontavam sempre para os mesmos culpados: os políticos, os direitos humanos, os vagabundos ou as famílias complacentes que não educavam com rigor os filhos. Nunca o desemprego, a fome, a injustiça, o rentismo, etc..  À base do grito, foram-se colando nas imagens um sentido emergencial que tem como objetivo exacerbar o sentimento de frustração e de impotência do cidadão médio, com vistas a deixá-lo sempre em situação de estar prestes a aderir a qualquer solução violenta e definitiva em relação ao inaceitável. Grita o apresentador do programa e gritam também as imagens que não desviam do sangue, da mutilação; que perseguem o choro, a humilhação, a agressividade. Devassado por clamores e por hipérboles o cidadão médio não tem tempo de refletir, de sopesar os fatos, de escolher. Ficar parado é ser cúmplice. Então qualquer solução drástica – o linchamento, a intervenção militar, o populismo penal, a supressão de direitos – deve ser aceita, pois é melhor do que não fazer nada diante do ABSURDO e dessa vergonheira e dessa cafajestada toda que está aí!

Daí vieram os smartphones e agora não precisamos de toda a expertise do Carlos Massa e dos seus sucedâneos. Agora cada um de nós pode apontar uma câmera e publicar no twitter ou no facebook  nossa indignação com qualquer coisa que consideremos intolerável: do sujeito que estaciona na vaga de deficientes ao pobre de chinelo na poltrona ao lado do avião; da pessoa que bate no animalzinho de estimação ao produto vendido com validade vencida. E não importa nossas razões, mesmo que as tenhamos, a imagem já diz suficientemente. Não importam versões, interpretações ou confrontações de pontos de vista. Podemos jogar a imagem junto com nossas frases de ódio e pronto. O mundo estará mudando para melhor, porque não fomos passivos frente ao absurdo.

É nesse contexto que um sujeito se arvora o direito de pegar um megafone e sair gritando (sim, gritando com um megafone) no ouvido de uma deputada com a qual ele discorda das opiniões. Outro momento em que eu senti que estava vivenciando um ponto de irreversibilidade no âmbito do normal foi quando eu assisti ao vídeo gravado pelo Marcel Van Hattem, antes de ele ter sido eleito deputado estadual – e provavelmente por isso – quando ele acossou a deputada federal Maria do Rosário no Brique da Redenção, aos berros de “Defensora de bandido!”; fazendo com que ela tivesse de deixar a atividade de campanha que ela realizava. Era o prenuncio do tempo dos esculachos. Houve muitos outros, nenhum me pareceu tão violento, pois ele estava gritando com um megafone no ouvido dela! Mas provaram da estética do grito Guido Mantega, Chico Buarque, Eduardo Cunha e até Michel Temer. O cidadão médio aponta a câmera e manda ver seus impropérios, pois há um senso de legitimidade moral que o faz sentir livre para agir dessa forma. Ele não precisa se explicar ou arrazoar sua ação, a obviedade está ao seu lado. Está tudo aí. Só não vê quem não quer. Esse é o pensamento sub-reptício do esculachador. Ele não considera que o outro tenha um ponto de vista legítimo e que lhe caiba convencer, argumentar ou defender a sua opinião.

Pois eu não poderia supor que o deputado Van Hattem quisesse expandir seu método de atuação para as salas  de aula. Seu projeto Escola Sem Partido usa uma tática bastante espúria. De saída ele usa um nome que chama por consenso. A escola não deve mesmo ter partido. O problema do projeto do deputado esculachador é que a escola já não tem partido e ao nomeá-la assim, ele faz supor que a realidade é diferente e produz o senso de emergência que mobiliza os “cidadãos de bem”.  A escola já não tem partido por uma razão simples. Nas escolas públicas, os professores, servidores públicos, são proibidos estatutariamente de fazer proselitismo político-partidário no seu local de trabalho. Nas escolas privadas, se o fizerem, serão regulados pela lei de mercado. Se os pais decidirem que isso não convém à educação dos seus filhos, logo perderão seu emprego.

Mas o objetivo desse projeto, no fundo, não é combater esse fantasma, dado que ele não existe. O objetivo inconfessável é atingir um dos últimos espaços dialógicos da nossa formação cultural: a escola. Em tempos de redes sociais e de privatização dos espaços públicos a escola é o refúgio de uma arte em declínio: a conversa, o diálogo, a narratividade. Na escola se fala e se escuta. Isso, por si só, para além das já existentes barreiras legais para a partidarização desse espaço, já é uma garantia de não doutrinação. Os estudantes desenvolvem no espaço escolar um sentido de autonomia intelectual que os fazem capazes de submeter as informação ao seu crivo moral. Não são sujeitos incapazes de análise crítica. E em tempos nos quais um deputado se elege após constranger uma colega de profissão aos gritos de megafone, de fato, não interessa ter eleitores com senso crítico. Melhor tê-los apavorados, ressentidos, em estado de alerta, prontos a aderirem a qualquer projeto que se apresente como redentor, mesmo que este projeto não tenha bases sólidas.

Um dos mais tristes episódios dessa escalada da insanidade promovida por gente que é muito esperta e sabe o que está fazendo, como os defensores do projeto da Escola Com Mordaça, é a oferta de compra de gravações de momentos de sala de aula em que um professor esteja “doutrinando” seus alunos. Por valores que variavam de 50 a 150, um estudante em seu perfil do facebook , supostamente integrante do Movimento Brasil Livre, oferecia-se para comprar vídeos que iriam compor um documentário denunciando a atividade de professores “esquerdistas”.

Imaginem que tipo de relações pedagógicas se estabelecem no contexto da possibilidade de uma filmagem clandestina? Há algo a ser ganho pelas nossas salas de aula  com essa invasão da “estética do grito”? Justamente nesse espaço que é consagrado ao diálogo, à argumentação, à troca de saberes?

Bons argumentos continuam bons mesmo quando sussurrados. E a escola de que precisamos é a que nos ajuda a construí-los.

Eles não vão ganhar no grito!






2/18/2016

Os desclassificados de Lula.



Pode ser que Lula seja de fato o chefe da quadrilha. O Brahma. O 9nine. Pode ser que não haja viva alma mais honesta do que ele neste país. O mais provável: Lula é exatamente, como a maioria dos brasileiros, um sujeito que acha errado roubar, mas que é capaz de relativizar seus padrões morais quando se trata de aproveitar alguns luxos. 

Esta alternativa é a mais provável porque se ele fosse de fato o mafioso que apontam, não estaria sendo investigado por conta de um barquinho de  4 mil reais, 37 caixas de bebida, uma reforma num sítio que não é dele e um triplex no Guarujá que está longe de ser um Taj Mahal. Se fosse esse bandido sórdido que todos dizem, estariam aparecendo contas na suíça rechedas com milhões, helicópteros abarrotados de cocaína, desvios de merenda escolar ou outras maracutaias. E não há de se dizer que ele não foi investigado ou que não haja interesse político, judiciário e midiático para fazê-lo.

Por outro lado, também não é provável que ele seja a alma viva mais honesta desse país, pela mesma razão de ter sido agraciado por empresários com sítio em Atibaia à disposição, vantagens no desfazimento da compra de um triplex - afinal, ele conseguiu reaver o dinheiro das cotas pagas, o restante dos mutuários, não - além de outras benesses que hão de aparecer enquanto o episódio eleitoral de 2014 estiver na pauta da imprensa. Porque, se essas denúncias incessantes contra Lula não provam nenhuma ilegalidade – e isso acabará sendo um erro crasso para quem quer acabar com a sua reputação e inviabilizá-lo para 2018 – , elas demonstram, por outro lado, que  o empresariado brasileiro corteja a classe política e sabe mimá-la ao largo da moralidade, mesmo que para isso não infrinja nenhuma norma escrita. Senão, vejamos aquele outro inconsolável presidenciável que recebeu de presente de um banqueiro a lua de mel com festa e hospedagem luxuosa em hotel nos EUA. Eventos estes que não estamparam capas de revista de denúncia e nem espantaram a classe média brasileira.

É sobre isso que precisamos falar para entender o fenômeno da demonização do Lula. Este é um fenômeno de classe média, justamente a classe média que Lula sempre sonhou ser e que foi fruto da sua polêmica com a filósofa Marilena Chauí.

Vamos revisar retrospectivamente, de modo bastante sintético, os fatos. Marilena Chauí relatou em uma palestra cujo link para o vídeo segue no final deste texto, um acontecimento ocorrido em São Paulo no qual foi  agredida por uma típica paulistana classe média. Então ela faz uma aula muito didática acerca das classes sociais, tais como apresentadas por Marx. A classe dos capitalistas: aqueles que não precisam trabalhar para viver, pois detêm os meios de produção e são donos das fazendas, das fábricas, das grandes empresas, estabelecimentos comerciais e dos bancos. A riqueza dos capitalistas é produzida pela classe operária, a qual trabalha nas fábricas, nas empresas, nos comércios e nas fazendas. No caso dos banqueiros, sua riqueza é produzida por todos os que tomam dinheiro por empréstimo. Um dos acontecimentos fulcrais nesse debate sobre Lula e as classes sociais é que ele aproximou o operariado do crédito bancário que, até então, era direcionado principalmente aos pequenos burgueses. Esta classe, a dos pequenos burgueses, dentro da qual a maioria dos que estão lendo este texto se situa, eu inclusive, composta pelos pequenos comerciantes e pequenos empresários, pelos funcionários públicos e pelos profissionais liberais. 

Uma questão importante levantada por Marilena Chauí é que a pequena burguesia encontra-se num impasse, já que ela não tem uma função exatamente crucial na engrenagem do capital. Nem ela detém os meios de produção, ela não é dona de nada a não ser de suas casas e seus carros, e nem sua força de trabalho é indispensável. Se os pequenos burgueses se negarem a trabalhar, a economia continua a funcionar mais ou menos como era antes, pelo menos nos seus aspectos essenciais. 

Frente a esse vazio de poder. Os pequenos burgueses compensam esse déficit de força política, então, com algo que é igualmente poderoso, ou seja, o poder da informação e da opinião. Os capitalistas não gostam de mostrar a cara e falar em público, já que são em menor número e em geral temem serem vistos como exploradores. Preferem ficar por trás da cortina. O operariado, no mais das vezes com baixo estudo, com algumas exceções, não consegue fazer uma leitura sofisticada da realidade ou expressar suas opiniões adequadamente. É, pois, neste vácuo que se instala a pequena burguesia. Então o que os pequenos burgueses acabam produzindo não é tanto os produtos ou os bens do capitalismo, não é alimento, nem derivados de minério, nem vestuário, nem objetos de consumo, o que eles (nós) produzem é o “modo de vida”. Os pequenos burgueses dizem e/ou demonstram como é desejável viver e pensar. A moda, a moral, a cultura, o consumo, essas são as dimensões por excelência da atuação dos pequenos burgueses.  

Pois bem, a classe média não é plenamente equivalente à pequena burguesia. Pois a primeira é uma segmentação por renda, enquanto a segunda é uma segmentação por papel ou função na dinâmica econômico-política. Via de regra, porém, a classe média abarca os setores mais bem renumerados do operariado, mais os pequenos burgueses. São, então, os operários mais especializados e os trabalhadores melhor posicionados no setor de comércio e serviços, mais os donos de pequenos estabelecimentos comerciais, os profissionais liberais, os funcionários públicos e pequenos empresários do ramo dos serviços (posso ter esquecido algum setor, mas já dá uma ideia).

Em suma, classe média somos todos nós que possuímos um pouco mais do que apenas o que dá para sobreviver, mas que não podemos nos dar ao luxo de deixar de trabalhar. Para não ter erro, qualquer um que já se sentiu feliz ou esperto por comprar em liquidação um produto dispensável (um pacote turístico, uma passagem aérea, uma roupa de festa, etc.) é classe média. Porque a classe baixa faz questão de pagar o preço cobrado pelas mercadorias quando pode, enfim, realizar uma compra supérflua, e a classe alta está mais atenta às flutuações do mercado financeiro do que às do varejo.
A polêmica Marilena Chauí-Lula se deu justamente porque a filósofa diz em determinado momento da sua palestra: “eu odeio a classe média”, enquanto Lula, num de seus discursos ainda como presidente, na sua habitual retórica de chão de fábrica, disse: “eu esperei tanto tempo para ser classe média e agora as pessoas vem dizer que isto é ruim”.

Esse é o ponto. Lula não foi capaz de oferecer aos pequenos burgueses brasileiros um “modo de vida”. Não foi capaz de formar opinião. Não foi capaz de se comunicar com essa massa que não é numericamente marjoritária no Brasil, mas que é quem a gente de fato encontra de banho tomado nas ruas dos bairros com pavimentação e saneamento, nos cafés e nas timelines. Quando ascendeu socialmente, ao invés de se comunicar com a pequena burguesia ajudando-a a construir valores, como um Mujica, como um Olívio Dutra, como um Cristóvão Buarque ou uma Marina Silva. Os dois últimos são políticos que não levam o meu voto, mas que aportaram discursos no campo da ética, da cultura, dos modos de viver. Lula nunca disse nada que não fosse estritamente ligado ao poder de consumo e isso foi absolutamente coerente com a sua vida pessoal: churrascada com os amigos, futebol, cerveja no isopor, etc.. Lula pode ter ascendido economicamente, até além da classe média, já que fez fortuna com palestras a 400 mil, seguindo a pista deixada por outros ex-presidentes. Mas Lula não ascendeu socialmente do ponto de vista da compreensão do seu papel na dinâmica de classes. Nem Lula emancipou o operariado abolindo o trabalho alienado como o socialismo pretende, tão somente aproximou o operariado do crédito e do consumo. Nem conseguiu representar os pequenos burgueses. Seu trabalho de maior relevância foi justamente com o lupenproletariado, isto é, aqueles que não tinham nem emprego e nem empregabilidade, nem saúde e nem alimentação. Foi aí que sua política foi mais eficaz, na proteção social e alimentar, nunca abordada com seriedade no Brasil dos coronéis. 

Quanto aos capitalistas, estes ganham sempre. Sua conta não é de ganhar ou perder, mas a de ganhar muito ou ganhar exorbitantemente. Ganharam muito com Lula, mas sonham que podem exorbitar mesmo com um governo neoliberal que queira privatizar o que ainda restou após a privataria tucana.
E é esse o preço que tem sido cobrado dele. A classe média, mesmo tendo sido economicamente beneficiada por Lula, já que o aumento do consumo pela classe C acabou indiretamente aumentando a sua riqueza, não tolera que Lula tenha se tornado uma figura de destaque mundial, o “cara” do Obama, o amigo do Bono Vox, um líder da estatura de Mandela ou de uma Madre Teresa.  A melhor síntese da repulsa que os pequeno burgueses sentem de Lula foi dada por Caetano Veloso:  “Lula não sabe falar. É um analfabeto”. Lula não fala aquilo que os pequenos burgueses querem ouvir. Quando vai ao microfone, insiste em falar da ascensão econômica da classe C. Nada diz sobre  gestão, nada diz sobre meritocracia, nada diz sobre enxugamento do Estado. Não fala a linguagem que a mídia, setor no qual a pequena burguesia se faz ouvir, diz ser a correta.

O que nós tentamos execrar imolando Lula em praça pública, é o fantasma da vida banal. Para os burgueses a vida do pobre é banal, tomada do início ao fim por trabalhar, comer, trepar e dormir. Nossa luta é tentar fazer das coisas que o capitalismo pode oferecer (turismo, foto no instagram, selfie com biquinho, tênis com amortecedor, corpo de academia, corpo de praia) algo que faça a vida valer a pena. E para isso precisamos de ilusões como gestão eficiente do Estado: quando o Estado for eficiente e pagarmos menos impostos, teremos, enfim, tempo para aproveitar tudo o que o nosso trabalho permite e vamos tirar selfies na frente de cada monumento famoso do mundo! Quando a meritocracia imperar e acabarem as cotas, então seremos reconhecidos na nossa genialidade e nossos posts no facebook serão muito curtidos, e seremos invejados por todos os vizinhos e todos os ex-colegas de colégio!

Para isso precisamos de um representante que saiba falar. Não um que não tenha metas, mas queira dobra as metas quando as atingir. Não um que seja analfabeto. Precisamos de um líder que mantenha brilhante esse verniz que a cultura pinta sobre o cotidiano e que nos impede de ver que não são apenas os pobres, mas a rigor nós também não fazemos muito mais do que trabalhar, comer, trepar e dormir. Sem esse verniz que é a formação de opinião, seríamos relegados a conversar sobre o clima ou teríamos, enfim, de encarar o fato de que na dinâmica social e econômica em que vivemos, a grande diferença está entre aqueles que trabalham: operários e pequenos burgueses, e aqueles que não trabalham: lumpenproletariado e capitalistas. E que nós estamos presos entre a tentativa de não cairmos na indigência dos lumpen e na ilusão inalcançável do gozo irrestrito dos capitalistas. O que a burguesia faria se confrontasse a realidade cruel de que ela está mais próxima do operariado do que do capitalista? É isso que Lula nos lembra a cada vez que sua língua presa fala “nunca antes na história desse país”. E por isso não será perdoado.

Marilena Chauí - sobre a classe média
https://www.youtube.com/watch?v=9RbBPVPybpY 

Marilena Chauí - "eu odeio a classe média"
https://www.youtube.com/watch?v=fdDCBC4DwDg

1/29/2016

Confissões de um chato


Terminei de ler “A confissão da Leoa”, de Mia Couto. Já tinha escutado falar maravilhas do livro e já tinha lido um par de contos do autor, a expectativa era grande. Gostei. O livro tem uma estrutura narrativa inteligente e até aquilo que muitos desprezam: uma trama, um enredo. Ele demora a se apresentar, começa a se insinuar da metade para o final do livro. Mas está ali. O ponto forte, porém, são as frases.  Que frasista! O livro é um testemunho da inteligência e da sensibilidade do autor. Elas se evidenciam o tempo inteiro, elas falam alto durante todo o livro e é aqui que nós nos desencontramos, eu e o livro.

Sim. Porque vocês já devem ter percebido. Sou chato, chato, chato! Gostaria de dizer isso lamentando, mas sou tão chato que nem chego a achar isso um defeito. Quando  eu escolho uma experiência artística ou cultural eu sintonizo minhas expectativas de acordo. Então quando eu vejo um filme blockbuster em casa para me distrair e para descansar eu tenho um alto grau de tolerância para porcarias. Quando escuto uma música num casamento, ou quinze anos, ou formatura, consigo me divertir com boa parte das músicas as quais eu acho lixos culturais produzidos pela indústria fonográfica. Mas sei que o que estou escolhendo ali é um pouco de frivolidade social ritualística. Uma forma de respeito aos formandos, noivos ou aniversariantes. Uma forma de esquecer um pouco que sou chato.

Mas quando eu vou atrás de um encontro artístico, sobretudo os literários, eu espero muito e me frustro com mais facilidade. Por isso, embora tenha gostado e admirado profundamente muitas coisas do livro do moçambicano, ele também me incomodou bastante e certamente passará longe de figurar entre os meus favoritos. A razão? Eu gosto de truques*.

Duas coisas para mim são intoleráveis: o mágico que vende seus segredos, como o Mister M ou aqueles que vendem segredos de dados ou de cartas no calçadão; e o mágico que gosta de aparecer mais do que a sua mágica, como os ilusionistas performáticos estilo David Cooperfield. Eu gosto de mágico ordinário, estilo Tio Tony (os mais jovens não chegaram a conhecer. A velhice está chegando para se associar a chatice). O mágico que faz o truque simples, mas muito bem feito; que faz as bolinhas surgirem entre os dedos , advinha as cartas e de repente desaparece um elefante e aparece um fusca  (Tio Tony era bom mesmo!). Ou seja, o grandioso e o espetacular surgem entremeados, de surpresa, assombrando-nos depois de ter apresentado diversos truques simples, mas muito bem executados.  O que isso tem a ver com Mia Couto?

Mia Couto em “A confissão da Leoa” é o David Cooperfield da literatura. A narrativa dele respira embaixo da água, se livra de camisas de força, atravessa a Muralha da China, levita e até mesmo voa. A grandiosidade das suas frases é uma exibição permanente do gênio do autor. Faltou espaço para a obra. Praticamente cada parágrafo contém uma grande frase, uma grande epígrafe, um pensamento descolado do senso comum, ou épico, ou lírico, ou poético. Eu tenho vontade de colecionar essas frases. Tenho vontade de postar no facebook com autoria inventada, tipo, “antigo provérbio taoísta” ou “sabedoria ameríndia” ou “vozes sopradas no deserto”. Mas essas frases me distraíram do livro, me distraíram de Mariamar e de Arcanjo Baleiro. Mia couto ficou maior do que seus personagens em “A confissão da Leoa” e para mim isso é um erro grave em literatura.

Essa é a mesma razão porque não gosto de Manuel de Barros para a surpresa de muitos amigos que o idolatram. Gosto de certas frases. Reconheço a genialidade de algumas inspirações. Mas a poesia dele não me encanta, aliás, me aborrece. Na sua poesia falta tempo para estabelecer um encontro, logo vem uma frase, um neologismo ou um trocadilho soando inteligentemente inocente para nos lembrar de que o poeta é alguém especial. 

Eu gosto de João Cabral de Melo Neto, arquiteto meticuloso, calculista dos versos que nos deixam sem fôlego quando se resolvem na palavra precisa. E gosto também de Waly Salomão, como sua poesia da correnteza do rio, arrebatado e arrebatador. Em João Cabral a obra está lá grandiosa, o poeta é apenas o seu materializador. O operário que intui seus contornos e a lapida na matéria sutil da língua. Em Salomão a poesia o carrega, o arrasta de roldão. Ele é ninguém, ele é mais um, ele é o veículo, o cavalo do encosto, do duplo, do obsessor que é o verdadeiro poeta, como escutei ele dizer num sarau no terraço da Usina do Gasômetro nos idos da década passada. Nos dois casos há uma obra poética que reclama seu espaço. 

Com a narrativa de Mia Couto, por outro lado, senti que nosso encontro foi constantemente interrompido pela presença do autor. Só conseguia voltar para ela pelas razões que disse no início do texto: pela instigante estrutura narrativa, pela malfadada trama. Não me aborreceu. Como disse, cheguei a gostar. Mas não me encantou.

“Uma porção de rugidos não faz um leão. O medo instilado nos seus silêncios, sim.”
Provérbio africano.

* Nisto estou com o meu querido amigo e orientador de doutorado Luis Antonio Baptista.

1/07/2016

O dom de iludir

Recentemente a presidenta* Dilma sancionou o projeto do Dep. Márcio Marinho que propõe dobrar as penas dos crimes de estelionato cometidos contra idosos. A via punitiva, a qual prioriza medidas prisionais e aumento da duração dos encarceramentos não me parece a melhor saída para diminuição da criminalidade. Contudo, essa medida tem algo de interessante que é o espírito de proteção aos idosos. Uma proteção não apenas no sentido da tutela, de oferecer cuidados geriátricos aos velhinhos, ou de recreá-los como se fossem crianças no jardim de infância. Mas uma proteção que acolhe o idoso na sua singularidade, qual seja, o fato de que a velhice isola e que no isolamento as pessoas estão mais vulneráveis a serem enganadas.

O meu texto de hoje não tem a ver com o tema da velhice, mas sobre essa relação entre isolamento e ilusão. Sobre isso que acontece com todos e não apenas os idosos e que é relativo ao fato de sermos enganados com muita frequência: pelas operadoras de telefone, de internet, que não entregam o serviço com a qualidade prometida; pelas lojas de grife que vendem roupas de baixa qualidade com preços exorbitantes; pelos governantes que recolhem impostos e não os direcionam à prestação dos serviços públicos a que eles se destinam; pelos patrões que não oferecem o plano de carreira acenado à época da contratação; pelos empregados que não desempenham as atividades que diziam saber realizar quando se candidataram ao emprego; pelo professor que não domina o conteúdo ou não prepara as aulas que se compromete em lecionar; pelos alunos que não leem os textos ou não realizam os trabalhos escolares que aceitaram fazer; pela imprensa que não informa os fatos com a imparcialidade a qual se autoproclama, enfim, o engano e a ilusão são menos exceções do que regra na nossa vida cotidiana.

Os psicólogos norte-americanos (eles são uma boa fonte para achados relativamente inúteis, mas anedóticos, excelentes para crônicas) criaram um termo chamado “dissonância cognitiva”. Para eles, nossa “mente” (eles gostam desse termo) trabalha numa perspectiva integradora, ou seja, pretende integrar com coerência os diferentes fatos da realidade. Quando isto é impossível, por exemplo, quando os pais de uma criança batem nela pretensamente para educá-la, isto gera uma dissonância cognitiva na mente da criança. Um fato do mundo que ela toma como real é: “meus pais me amam”. O outro fato inconteste é: “meus pais me batem”. Essa dissonância é intolerável e precisa ser corrigida pela mente com uma crença corretiva: “sou uma criança má que merece apanhar”.

Está aí um exemplo bastante ordinário, provavelmente desimportante do ponto de vista de como cuidar dessa criança que apanhou, na medida em que ele reduz cada foram de amar e cada gesto de bater a um amar e um bater típicos, universais, desencarnadas variáveis de uma equação. A teoria da dissonância cognitiva precisa destes elementos generalizáveis e prontos para receberem uma escala de valor. Isso é bom, isso é ruim.  Sabemos, ao contrário, que cuidar de traumas infantis tem mais a ver com revisitar a complexidade e a tonalidade das narrativas que se articulam ao redor dos fatos, e não dos fatos em si. Nem todos os pais amam da mesma forma e nem batem da mesma forma, assim como o amor e a agressão não são experimentados da mesma forma pelas crianças.

No entanto, o conceito de dissonância cognitiva e nosso empenho em evitá-la, é bastante útil para compreender essa dinâmica ilusória que perpassa nosso dia-a-dia. Somos enganados, em primeiro lugar, porque queremos ser. Em segundo lugar, porque fomos ensinados a ser.

Por que queremos ser enganados? Para evitar a dissonância cognitiva. Um exemplo clássico é o da pessoa que compra um carro novo, gasta uma fortuna, contrai dívida para andar com o carro novo e o carro começa a dar problema. Se a pessoa tivesse encontrado o carro na rua, ou herdado, se ela tivesse tomado posse do carro sem esforço, provavelmente essa pessoa já reclamaria do carro na segunda manutenção. Mas como ela comprou o carro, como o escolheu, como se esforçou por ele, a ideia de que o carro é uma porcaria é extremamente custosa e causa uma forte dissonância cognitiva: “sou uma pessoa inteligente e que faz boas escolhas”; “escolhi um carro de um modelo ou marca vagabundos”. São dois fatos da realidade que não se integram com coerência. Então esta pessoa pode passar muito tempo acreditando em tudo o que for dito para ela:  que o carro é assim mesmo no início, mas vai melhorar; que está “amaciando”; que ela tem que aprender a dirigir o carro; etc. Ser enganado é melhor, é menos custoso, do que aceitar o equívoco.

A outra razão de sermos enganados com frequência é que fomos ensinados assim. Fomos ensinados a aceitar a realidade como sendo simples e ordinária. Fomos ensinados a interpretar a nós mesmos e a realidade sob essa unicidade típica da dissonância cognitiva. As bruxas são más e feias. Os heróis bons e lindos. E são sempre assim. Assim sempre serão. Se uma bruxa se transforma em fada é porque, na verdade, ela sempre foi fada, nunca foi bruxa de verdade, apenas estava sob efeito de um encanto. Bruxa ou fada. Herói ou vilão. Me amam ou me odeiam. Bem-me-quer ou malmequer. Lógica disjuntiva. Ou isso ou aquilo. As narrativas infantis e o próprio modo de educar as crianças (isso é feio; isso é bonito; isso é certo; isso é errado) nos fazem apreender a realidade de modo maniqueísta.

Quando passamos pela adolescência e começamos a enxergar as hipocrisias, a compreender os diversos pontos de vista e o modo pelo qual as pessoas vivem, nem sempre de acordo com aquilo que elas dizem ser o correto, então começamos a ter uma visão mais relativista sobre o que é ser bom ou ser mau, estar certo ou estar errado. Passamos a entender que às vezes o certo é errado do ponto de vista de uma pessoa; e o errado é certo de outro ponto de vista. Por vezes, revemos nossos próprios valores e passamos da fé para o ateísmo, da direita para a esquerda, da valorização das coisa materiais para as coisas espirituais ou vice-versa. Afirmar pontos de vista diferentes dos da família de origem parece ser importante para atravessar esta fase.

Mas isto não significa que estamos livres da dissonância cognitiva, que tenhamos deixado para trás uma visão simplista do mundo. Relativizamos as coisas, mas continuamos firmemente atados a uma compreensão binária do mundo. O que é certo nunca pode ser errado ao mesmo tempo. O bom não pode coincidir com o mau. O honesto não coincide com o criminoso. E assim, ingressamos na vida adulta prontos para sermos enganados, pois vamos fazer tudo para querer acreditar que em algum lugar: no trabalho, na igreja, no partido, na família, na tradição, no consumo, na televisão, em algum lugar há de haver algo que corresponda ao bom, ao belo, ao verdadeiro, tal como eram bons, belos e verdadeiros nossos heróis infantis.

Foi desta forma que eu fui enganado. Assim como muitos foram e continuam sendo. Eu fui enganado pelo governo Lula. Não porque, como se diz, foi o governo dos “petralhas”, da “roubalheira”, do “mensalão”.  Isto também foi uma decepção. Mas fui enganado porque acreditei que seria um governo de ruptura com a ordem estabelecida na política brasileira. Fui enganado porque eu queria acreditar que a política brasileira era um antro de pessoas corruptas e mal intencionadas e que a chegada de um líder bom, em um partido comprometido com boas causas, poderia ser um caminho direto e sem atalhos em direção à virtude. Ou seja, fui enganado porque eu queria acreditar que a realidade era mais simples do que ela de fato é. Que um partido não é uma unidade de causas e interesses, mas um conglomerado de forças em luta. Que um líder não é uma mente brilhante e uma alma pura mirando o horizonte da justiça e da igualdade, mas uma consciência afetada por diversas vozes e interesses. Eu fui ensinado e quis acreditar nessa vida sem misturas, sem hibridismos.

Mas o que vimos foi uma realidade muito mais complexa. Houve o crescimento econômico. E houve a continuidade da roubalheira. Houve a distribuição de renda nunca-antes-na-história-desse-país. E houve a aliança com Maluf, Collor, Calheiros e Cia. E o mesmo pode ser dito sobre o “outro lado”. FHC foi o príncipe da privataria, mas foi também o pai da estabilidade inflacionária. Foi o sucateador do Estado, mas foi também o criador da lei de responsabilidade fiscal. Isto não significa que sejam todos iguais ou que é questão de relativismo (o certo de um é o errado de outros). Significa apenas que as nossas escolhas têm que considerar os graus, os quantas, as intensidades. Não é uma questão de reconhecer, de identificar o bom líder, honesto e íntegro. Mas de calcular, de sopesar, de criar critérios e de interrogá-los eticamente, de submeter à realidade estes critérios e reformulá-los. Um trabalho permanente de escolher dentro da complexidade, dentro do caos, do confuso, do misturado, aquilo que mais se aproxima do bom, do correto, do justo; sabendo que o bom, o correto e o justo também se modificam com o tempo. É, portanto, todo um processo que não se resolve numa equação através da aritmética da dissonância cognitiva. Matematicamente está mais próximo dos cálculos diferenciais ou da série de Riemann, ou seja, destas formulações que buscam dar conta das variáveis nas suas variações e não nas suas estases.

É por essa razão que o meu grande incômodo com o momento atual não é que se esteja descontente com o governo, pois eu também estou, por diferentes razões. O meu incômodo é que essa campanha antipetista se parece muito com as histórias infantis, com a simplificação mocinho e bandido que serve apenas para nos deixar mais suscetíveis ao engano.  Muitas pessoas se sentem confortáveis com essa imagem dos PTralhas malvados, pois esse maniqueísmo é familiar. Assim como a do gringo bom, trabalhador. São manipulações grosseiras do senso comum que contam com a vontade das pessoas de serem enganadas, pois elas querem de todo coração acreditar que o mundo pode ser simples e ordinário e não caótico, confuso, desafiador.

Não há receita para viver nesse mundo da complexidade. Não existem critérios únicos e imutáveis para nos ajudar a realizarmos boas escolhas. Mas há um princípio que nos torna menos suscetíveis ao engano: viver é uma experiência coletiva. Este é outro fator escondido nas histórias infantis. Já repararam como o herói costuma ser “um” herói? Com raras exceções, as histórias infantis retratam grupos de crianças ou grupos de protagonistas. Sempre é a Chapeuzinho Vermelho, a Cinderela, o Gulliver, quando muito, são João e Maria, a dualidade complementar que retorna ao “um”.  Esse mundo simples e maniqueísta também é o mundo dos indivíduos solitários, com um desafio singular e uma glória privada.

Talvez essa seja uma ilusão ainda mais difícil de abandornarmos.

*A linguagem é viva e experimenta as forças e os jogos de poder de cada geração. Se queremos um mundo mais equânime entre homens e mulheres, acho muito justa a reivindicação de chamar “presidenta”. Quando alguns lamentáveis formadores de opinião como o Davi Coimbra dizem que gostariam de serem chamados de “presidentos”, para mim soa igual aos brancos que se dizem vítimas de racismo ou aos heteros que reclamam da heterofobia. Isto é cinismo, puro e simplesmente.